quarta-feira, 24 de julho de 2013

Sombras do Passado - Terceira Parte

   Apesar de a tarde já estar se encaminhando para o seu final, ainda havia um bom par de horas de luz.
  O xerife Al Fitzpatrick avistou o rancho ao longe, um pouco ansioso para conversar com o tio. Estava levando o jornal consigo. O jornal com o anúncio fúnebre que, afinal, era o motivo da sua visita. Durante o trajeto para o rancho ele vinha pensando qual seria a reação do tio ao ver o anúncio. De qualquer modo, agora ele estava bem perto de saber.
   Conforme ia se aproximando do rancho, ele avistou alguém que estava no alpendre, na entrada da casa. Não demorou muito para reconhecer que era Dolores, a empregada mexicana de seu tio.  Ela olhava para o cavaleiro que chegava ao longe, com uma mão sobre os olhos. Dolores era uma mexicana baixa, morena e que começava a atingir uma certa idade. Havia anos ela cuidava do tio, e muito bem. Um homem velho numa cadeira de rodas sempre precisa de alguma atenção por perto. E era o que a mexicana fazia. Ela logo entrou na casa.
   Fitzpatrick foi chegando nas proximidades do rancho e ao mesmo tempo em que passava por sob a grande placa de entrada, com SILVERBELL escrito em grandes letras pretas, o tio ia saindo da casa, girando as rodas da cadeira com as mãos, e parando perto dos degraus de entrada. Al acenou para o tio, apeou e amarrou a montaria na trave para os cavalos. Caminhou devagar, com o jornal em mãos, até parar na frente do tio.
   - Dolores ainda enxerga longe.
   - É. Parece que os olhos dela não envelhecem.
   - Quase tão bons quanto os de um apache -  brincou o sobrinho.
   - Quase tão bons - repetiu o tio.
   Al olhou para o tio sentado na cadeira de rodas. Não parecia mais velho que da última vez, embora não o visse há um certo tempo. A barba tinha mais fios brancos agora, mas não muito mais que os negros. Estava volumosa e bem feita. Os cabelos é que tinham rareado bastante.
   - Como tem passado, John? - peguntou Al.
   - Sempre nessa maldita cadeira - ele respondeu. Hesitou por um instante e continuou. - Estou surpreso que você não mudou nada. Dizem que o cargo de xerife envelhece um homem.
   Al nada disse e se limitou a dar um pequeno sorriso.
   O tio apontou para o jornal que ele tinha em uma das mãos:
   - Veio me manter informado?
   - Num certo sentido. - disse o xerife, olhando para o jornal. - Há algo aqui que talvez lhe interesse.
   John Fitzpatrick olhou para o sobrinho e coçou a barba por um momento. - Quer um café?
   - Eu gostaria.
   - Então entre. Dolores fez um que ainda está fresco.
   Eles entraram, o tio na frente. Passando pela sala, Al reparou que ela quase não tinha mudado. O sofá estava na mesma posição, assim como as duas poltronas. Em cima da lareira estava a Spencer do tio, pendurada na parede. Passando pelo corredor eles chegaram na cozinha, que ficava nos fundos da casa. Era bem ampla e ainda era possível sentir um leve cheiro de café.
   - O café está ali - disse John, apontando para uma mesa ao lado da pia.
   - Quer também?
   - Sim, um pouco.
   O xerife serviu duas xícaras. O café ainda estava quente, soltando uma leve fumaça. Ele entregou uma xícara ao tio, que estava ao lado da mesa principal da cozinha. Depois se recostou na pia e bebeu um gole. Após um breve silêncio, o tio falou:
   - O que há de interessante nesse seu jornal?
   Al folheou o jornal, parou em determinada página, dobrou o jornal em dois, deu três passos em direção ao tio e estendeu o jornal para ele, indicando o local onde estava o anúncio fúnebre. O tio pegou o jornal e pousou os olhos no local indicado pelo sobrinho. Após um instante seu rosto adquiriu um tom de surpresa. Ele leu, ainda com a surpresa no rosto. Ao terminar, comentou:
   - É um jornal de Tucson de quinze dias atrás. - disse, devagar e em tom pensativo, verificando a borda superior. - Onde conseguiu isso?
   - Toda semana o telégrafo recebe um desses. Eu sempre dou uma olhada.
   O tio voltou os olhos para o anúncio fúnebre, como se o relê-se.
   - Com certeza é o canalha do Corbett. Mas... - ele olhou para o sobrinho, tirando os olhos do jornal - por que ele voltou?
   - Também me fiz a mesma pergunta. - respondeu ele, olhando para o tio.
   - E também não encontrou resposta. - disse o tio. E acrescentou - É estranho. Quantos anos já se passaram?
   - Vinte e cinco anos.
   - Tempo à beça.
   Por um momento os dois ficaram em silêncio. O sobrinho olhando para o tio e este olhando para o jornal, pensativo. Por fim, John perguntou:
   - O que está pensando fazer?
   - Antes de vir pra cá, dei algumas ordens a Mendez. Ele vai se sair bem na minha ausência.
   John Fitzpatrick pousou o jornal na mesa e encarou o sobrinho.
   - Olhe - disse, por fim - eu entendo o que está querendo fazer. Eu também estava lá com seu pai e de certa forma morri também. - Ele passou as mãos pelos braços da cadeira de rodas. Por um instante ele olhou para o lado e sorriu, tomado por uma lembrança antiga. - Seu pai e eu costumávamos ir para o curral pela manhã e ficar montando nos bezerros de lá. Aquela coisa de quem fica mais tempo no lombo do bicho. Depois de uns tombos a gente ficava com a roupa suja de esterco. E sua avó ficava furiosa. - Seu sorriso se alargou. - Eu me lembro dela correndo atrás da gente, louca da vida. Ela tinha os olhos muito verdes, muito bonitos. Seu avô sempre dizia que os olhos dela lembravam a cor das águas do rio Colorado.
   Ele parou um instante, pensativo. Depois respirou fundo e olhou para o sobrinho: - O ponto é que você tem que estar certo do que quer fazer. Nossa família foi vítima daqueles bandidos, mas talvez não haja necessidade desse acerto de contas.
    O xerife olhou para o tio demoradamente.
   - O que você faria se pudesse ir lá?
   - Não sei. - respondeu o tio. - Nada, provavelmente nada.
   Al ergueu as sobrancelhas: - Estou surpreso de te ouvir falando isso.
    O tio girou um pouco a cadeira, olhando pela janela.
   - Eu aprendi que enquanto a gente passa o tempo tentando reaver as coisas que tiraram de nós, mais e mais coisas vão embora. Depois de um tempo tudo o que você quer é estancar o vazamento. Seu pai e eu nunca fomos obrigados a participar do grupo de vigilantes, nós entramos por conta própria. - Então ele se virou para o xerife. - O que você está sentindo, essa vontade de se vingar, não é nada de novo. A vida no oeste é dura com as pessoas e elas sentem vontade de bater de volta na primeira oportunidade. Mas as coisas podem não sair do jeito que você imagina.
   - Disso eu sei, John - respondeu Al. - O mundo não gira ao nosso redor, por mais tentador que essa ideia possa ser nesse momento. - Ele hesitou e disse: - Mas Deus me deu a oportunidade da vingança. Eu preciso ir lá e fazer justiça.
   - Com o poder que Ele nos concedeu - disse John, mais para si mesmo do que para o sobrinho. Al tinha o costume de ler a bíblia por conta do tio.
   John Fitzpatrick sabia que era inútil tentar demover o sobrinho da ideia. Ele tinha perdido o pai por conta daqueles bandidos e também tinha visto um tio inválido por todos aqueles anos por conta desses mesmos bandidos. E ainda era muito jovem para entender certas coisas. 
   Ele refletiu por alguns instantes e disse:
  - Bom, já que está tão decidido só posso lhe dar alguns conselhos.
   - Sou todo ouvidos - disse o xerife.
   - Um anúncio fúnebre, no código daqueles bandidos, significava inimigos a eliminar. Ray Corbett está vivo, mas alguém descobriu e botou o aviso no jornal. E pode apostar que não foi só nesse que você me trouxe. Ray era o chefe do bando e fugiu com todo o ouro. Por isso, quem espalhou esse anúncio com certeza era do bando na época.
   - Eu concluí isso também. Ray Corbett era o xerife de Florence, não era?
   - Exato. Tão xerife quanto você é hoje. - John sorriu. - Mais que os antigos cidadãos de Florence, os verdadeiros inimigos do velho xerife são os bandidos que ele passou pra trás. Quem era do bando e ainda estiver vivo para ver o anúncio vai querer participar do funeral do querido Ray.
   Al Fitzpatrick refletiu por uns instantes, como que organizando aquelas informações.
   - Como você pretende chegar lá? - peguntou o tio.
   - Vou até Tucson e pegar o primeiro trem pro norte.
   - Por onde vai começar?
  - Pelo armazém do velho Elliot. Mas não vou participar do encontro dos velhos amigos.
   Al tomou o último gole de café, posou a xícara na pia e pegou o jornal que estava sobre a mesa. Virou para o tio: - Algo mais?
   - De importante acho que não. Você é esperto e sabe se virar.
   - Bom, então acho que vou indo.
   - Eu te acompanho até a porta.
   Ambos, tio e sobrinho, foram até a entrada da casa. O pôr do sol estava se aproximando.
   - Tome cuidado, Al. Flagstaff precisa de um xerife como você.
   O xerife não respondeu de pronto. Caminhou até o cavalo, guardou o jornal no alforje da sela e foi até onde o tio estava , puxando o animal.
   - Não se preocupe, John. Vou me cuidar.
   Ele montou em seu cavalo.
   - Cumprimente Dolores por mim.
   - Pode deixar.
   Com um último aceno, o xerife partiu. 
   


    

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